Ambulance for Hearts

O regresso sem nunca voltar

[ou And in the end, the love you take is equal to the love you make]

O nosso universo é uma casa entrópica. Para mantê-lo organizado, é necessário despender muita energia. Da mesma forma, tudo o que é verdadeiramente importante precisa de manutenção: as amizades e outros amores, a democracia, o sistema nacional de saúde, a solidariedade, a paz, os direitos humanos e os das crianças, entre tantas outras coisas. Muitas vezes, a parte mais difícil do caminho acontece depois de se chegar.

Aprendi muitas coisas nesta viagem, principalmente as que já sabia. As maiores aprendizagens podem ser algo que já sabemos, mas que ignoramos. Uma delas é que lamento-me demasiado. No entanto, seria impossível não referir-me à confusão que foi o vôo de repatriamento, até porque ainda há muita gente à espera de voltar para Portugal, e espero que sejam tratados com mais dignidade. Os próximos parágrafos podem ser resumidos dizendo que foi feito um péssimo trabalho para trazer de volta os Portugueses que estão na Guiné-Bissau. Para poupar lamentos, recomendo que avancem o texto até ao próximo símbolo de avião. O único motivo para continuar no parágrafo seguinte é estarem de quarentena, e à procura de alguma coisa para fazer.

Apesar do nosso vôo de regresso estar marcado apenas para próximo dia 4 de Abril, com o fecho das fronteiras e a proibição da aterragem de voos no aeroporto de Osvaldo Vieira, em Bissau, não tivemos grandes hipótese senão a de estarmos disponível para o vôo de repatriamento. Um vôo que tínhamos que apanhar, mas que não tinha data. Disseram-nos que o ideal era ficarmos por perto do aeroporto. Em Bissau. Como Catió fica a uma distância temporal considerável do aeroporto, obrigar-nos-ia a ir para a capital, impedindo-nos de continuar o nosso trabalho. Também nos disseram que deveríamos evitar Bissau por causa da instabilidade política e do coronavírus. Lembrei-me do gato de Schrödinger.

Decidimos acreditar que nos avisariam com antecedência suficiente para irmos para o aeroporto. Uns amigos não foram tão confiantes e ficaram 11 dias, sem saírem do local que alugaram, que ficava a uns 500 metros do aeroporto, vivendo num ciclo de informação e contra-informação.

No dia 23 de Março, pela tarde, recebemos um email a dizer que o vôo seria no dia seguinte, dia 24 de Março pelas 23h00. Assim, fizemos as malas e partimos para Bissau no dia do vôo. No entanto, no dia do vôo, o aeroporto esteve fechado, porque tinha sido cancelado o voo. Não tivemos qualquer informação por parte da companhia aérea que Tanto Atrasou Portugueses. Não responderam a emails, nem atenderam telefonemas. Sem qualquer informação oficial, soubemos que o vôo ia ser realizado no dia seguinte. Até o Google sabia mais que nós, informando-nos que havia um vôo às 01h35 na madrugada do dia 26 de Março. Chegamos bem cedinho ao aeroporto, mas já encontramos muita gente amontoada à porta do aeroporto em fila bem compacta. Nenhuma dessas pessoas tinha um bilhete emitido. Apenas traziam promessas de um regresso. A longa espera só era quebrada, pontualmente, quando gerava-se confusão porque alguém estava a tentar infiltrar-se na fila. Um dos momentos em que mais vergonha alheia senti, aconteceu quando um homem, com um ar de quem já tinha feito umas voltas à terra, confrontou efusivamente uma senhora que estava a passar à frente na fila por estar grávida, mas que isso seria impossível porque tinha certamente mais de 70 anos. Tudo A Panicar.

Só começaram a fazer entrar pessoas uma hora depois da hora do check-in. É interessante relembrar que o motivo na origem de toda esta confusão foi o COVID-19. Teria sido pedagógico terem aproveitado aquele momento para informar as pessoas que o afastamento é importante e, se calhar, não juntar tanta gente de forma tão desorganizada. Outra coisa que teria sido também interessante, seria ter-se dito às pessoas que não existem ainda provas que a utilização das máscaras ao pescoço e à cabeça são factor de contenção do contágio.

Finalmente, quase uma hora depois da hora anunciada para o início de check-in, começaram a fazer a entrada no aeroporto dos felizardos escolhidos para o vôo. As pessoas responsáveis pelo processo de entrada começaram a confirmar o nome de pessoas através de umas listas em sítios aleatórios, sem respeito pela fila que tinha sido formada. Nova confusão. Depois de muitas trocas de discursos académicos sobre os méritos das civilizações de onde as pessoas provinham, as pessoas responsáveis pelo processo de entrada, acataram a recomendação de respeitar a ordem de chegada. Foram mudando a estratégia entre percorrer as filas e ler o nome das pessoas na lista, inspirados pela mudança da direcção do vento quente que, às vezes, passava. Tiveram que reestruturar o processo quando perceberam que as listas que tinham não eram as correctas. Foram buscar outras listas. Mais Tempo A Passar. Para termos ainda mais para contar, o nosso nome não estava na lista. Disseram-nos que Lisboa tinha alterado as listas que a embaixada tinha enviado. Eu não sabia que as cidades sabiam usar folhas de cálculo, muito menos que alteravam listas caprichosamente para dificultar a vida das pessoas. Disseram para esperar porque tudo se ia resolver e que, em princípio, todas as pessoas iam ter lugar. Isso contrastava com informações que ia recebendo de Portugal a dizer que tínhamos que ter paciência porque tinha havido algum problema e não havia lugar para todas as pessoas, e que, brevemente voltaria a haver outro vôo. Fomos esperando, enquanto elementos da organização entravam no aeroporto e voltavam com uns nomes de pessoas, escritos num papel bastante rabiscado, que iam deixando entrar. O nosso nome voltou várias vezes, mas sempre com uma cruz, que indicava que não fazíamos parte da lista de pessoas que iam Transportar Até Portugal.

O momento que alterou a nossa sorte foi quando o nosso amigo Mohamed, que entretanto chegou e não compreendia como não nos estavam a deixar passar para um vôo quando tínhamos um email a convocar-nos, ainda que para a véspera. Falou com uma pessoa em Crioulo, pelo que não percebi muito do que disse, mas deixaram-me entrar para falar com um responsável dentro do aeroporto. Lembrei-me que desde que saímos de Portugal, em muitos momentos, tive que regatear para manter alguns dos bens que levávamos ou para me facilitarem o acesso a algo a que tinha direito. Aquele momento poderia ser o último regatear da viagem. No entanto, regatear com uma companhia o que estava escrito, ainda que virtualmente, era outro tipo de regatear. Todo o processo seguiu-se dentro de uma sala de onde via o avião, com pessoas a entrar para lá, já depois da hora da suposta partida. Nunca me tinha sentido tão augado. Depois de muita insistência, de até ter tido um plano alternativo de ficar a dormir em casa de alguém que estava naquela sala, porque àquela hora iria ser muito complicado arranjar onde dormir, não sei muito bem como, consegui os últimos bilhetes. Embora contente, não consegui ficar verdadeiramente satisfeito porque ocorreu-me que a minha entrada no avião poderia significar que alguém não entraria. Essa sensação só desapareceu quando contei, pelo menos, dez lugares vazios durante o vôo. Pelo menos, dez pessoas poderiam ter tido a sua vida muito mais facilitada nos próximos tempos.

Mesmo com os bilhetes na mão, foi sofrimento até aos últimos instantes. Já passava largamente da hora de início do vôo e ainda tínhamos que despachar as malas, passar pela segurança e carimbar o passaporte. Ao chegar à porta de embarque, informaram-nos que estávamos em “standby” e ainda tivemos que esperar uns largos minutos para termos lugares atribuídos. Apesar disso, tenho a noção clara que todos estes problemas não passaram de coisas insignificantes face ao que grande parte do mundo vive diariamente.

No entanto, numa fase em que o tráfego aéreo é praticamente inexistente, deveria ter sobrado um pouco de tempo para fazer muito melhor. Quero realçar que todas os funcionários no aeroporto Osvaldo Vieira, foram extremamente atenciosas e estavam verdadeiramente incomodadas com a situação.

✈️🇬🇼🇵🇹

Uma situação muito engraçada ocorreu quando, já na fila para entrar no avião, um rapaz veio ter comigo, cujo nome memorizei como Vasco, o que quer dizer que não tenho a certeza, me perguntou se eu era o David. Disse-me que já nos tínhamos cruzado no dia em que comecei o crowdfunding para o “Ambulance for Hearts” e que lhe tinha contado o meu plano, que lhe parecia muito ambicioso. Achamos engraçado a coincidência de ele estar no início e no fim. O mundo é mesmo um lugar pequeno e é inevitável reforçar algo que pensei várias vezes durante todo o projecto “Ambulance for Hearts”. Quando deixamos de viver fechados sobre nós, o universo faz umas ligações muito engraçadas.

Esta noite, quando acordei não sabia onde estava, provavelmente porque parte de mim ficou na Guiné-Bissau. Não quero desvalorizar as dificuldades que estamos a passar, com esta pandemia, porque estamos a viver uma fase muito difícil e deve ser encarada com o máximo de cuidado e seriedade. No entanto, enquanto houver sofrimento, parte de nós está sempre longe. Os pais estendem-se pelos filhos, e os filhos são parte dos pais. E somos todos filhos. É preciso fazer memória e não podemos esquecer-nos que, quando acabar a tristeza, temos que gastar energia para manter a alegria, porque o destino é sempre o lugar mais difícil para se estar.

Não acredito na lei do retorno, em absoluto, no entanto, se tivesse que resumir tudo o que acredito numa única frase, provavelmente escolheria a última frase, da última música, do último discos dos “The Beatles”: “And in the end, the love you take is equal to the love you make”. Percebo agora que a melhor forma de fazer com que isso aconteça é através da partilha.

Este projecto não terminou com o nosso regresso. A fase seguinte deste projecto era voltar às escolas para partilhar com os mais jovens o que se aprendeu neste processo. Será obviamente adiada. No entanto ainda há muito a fazer, e agora sabemos melhor o que se pode fazer. Posso já dizer que há planos para breve. Podemos continuar a contar com vocês?

Este não é um projecto meu, é de todos vocês. Vocês são a “Ambulance for Hearts”. Muito obrigado a todos 🚑💕💕

Dia 1: Viana - Gondomar - Tarifa (854 Km)

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