Ambulance for Hearts

Dia 7: Nouakchott - Saint Louis (299 km)

Hoje foi de longe o dia mais duro. E o que mais me aflige é que não sei bem porquê.

As estradas foram más. Muito más. Em criança conhecia uma anedota com metades de buracos, mas buracos em buracos, foi novidade. Mas não foram os buracos que me afligiram.

Sinto que deixei parte de mim na Mauritânia. Pedaços do meu coração ficaram presos a alguns olhares vazios. Tanto sofrimento em tão pouco tempo. E os animais...

A quantidade de pessoas à espera ao sol que alguém pare e que lhes compre algo que não têm é marcante.

O contraste da cidade com o deserto é esquizofrénico. Depois de tanto deserto, a azáfama da cidade torna-se demasiado. Em Nouakchott fiz um pequeno vídeo para registar a confusão da cidade que me custou uma interacção mais dura com um grupo de pessoas que parecia querer jogar ao túnel comigo. Tirando esse momento, devo realçar que todas as restantes conversas com os Mauritanos foram extremamente cordiais. Com especial destaque para os polícias que nos foram parando dezenas de vezes.

As fronteiras são separações. Aqui sou eu. Ali estás tu. A fronteira da Mauritânia com o Senegal foi particularmente confusa. Especialmente no lado do Senegal. Em praticamente todas as interacções alguém queria alguma coisa. Foi o primeiro sítio em que nos chatearam por causa da carga. Os Ukeleles foram muito desejados.

As crianças passam o tempo a pedirem "cadeau". Tinha-me prometido que não cederia a nenhum desses pedidos. Mas quando uma criança viu os meus lápis de cor. Não consegui resistir. Pareceu-me ter visto nos seus olhos algo que eu eu via quando pedia aos mais pequenos para desenharem para o "Ambulance for Hearts". Assim que os teve na mão, arrependi-me. Pediu-me logo outra coisa.

Foi um dia de contagens decrescentes. Os kms para chegarmos ao cruzamento que separa a direcção de Rosso de Diama, onde várias vezes me disseram que os "bandidos" iam estar à espera. Os kms para chegar à fronteira e o dinheiro que não sabia se iria chegar porque não tinha levantado o suficiente. Sentia-me impotente. Um pouco como se estivesse sentado no deserto à espera que passe alguém. Pequenos problemas para quem realmente está sentado no deserto à espera que passe alguém.

Mais uma vez muito obrigado por todo o vosso apoio. Olhem à vossa volta. Sintam a sorte que temos e que muitas vezes não valorizamos.

PS: Peço desculpa por não estar a conseguir responder a todas as vossas lindas mensagens.