Ambulance for Hearts

Dia 10: Tambacounda - Catió (458 km, mas com sensação de 4580km)

[ou Somos todos irmãos]

O último dia da viagem foi tão forte que, em mim, nunca mais acabará. Uma verdadeira viagem deforma-nos, mas esta viagem agarrou-se a mim como uma segunda pele. A dureza da estrada deixou no meu corpo ondulações, como se no mar estivesse. Um embalar suave que se comporta como um anti-herói. Deveria magoar, mas acalma-me.

Começamos a "estrada" às 8h e só terminamos às 21h. O caminho foi feito de terra, pedras, buracos e lombas. Mais uma vez conduzindo grande parte de noite. Demasiado de noite. As "únicas" pausas foram as imensas paragens das forças da autoridade do Senegal e da Guiné-Bissau. Muitas delas à procura de um equilíbrio entre carteiras. De uma destas paragens resultou uma das experiência mais forte desta viagem. Um agente policial depois de perceber que não era publicidade ilegal no carro, verificar que tinhamos o número certo de extintores e triângulos, detectou que eu tinha mal acondicionado as malas no lugar dos passageiros. Teria que ser multado. Naquele caso eram 3000 CFA.

Levou-me para a cabana onde estavam outros agentes juntamente com a minha documentação. Disse-lhe que eu percebia o que estava a acontecer e que eu iria, obviamente, respeitar a lei, mas que gostaria que a coima fosse justa e que teria que ouvir o motivo pelo qual eu estava a passar ali.

Expliquei-lhe o que era a "Ambulance for Hearts" para mim, da forma mais profunda que alguma vez fiz. A importância de abraçar os nossos irmãos da Guiné-Bissau, de envolver os mais jovens Portugueses, com a esperança que percebam a sorte que têm e que muitas vezes desperdiçam e da importância de trazer os meus amigos comigo nessa viagem, ainda que simbolicamente. Disse-lhe ainda, honestamente, que um dos motivos em estar ali, era para conversar com ele. Para conseguir mostrar a quem me quiser ouvir, que somos todos irmãos. Emocionei-me no processo, mas acredito que não se notou. O guarda chamou-me "humanitaire". Recusei essa classificação. Disse-lhe que acreditava que esse era um dos problemas do mundo. Confundir o abraço natural entre irmãos com uma tarefa que tem que ter um rótulo. Que esse abraço começa em casa, com a mulher, filhos, vizinhos, amigos e que, depois pode ou não, ser alargado. Deu-me o seu nome e número de telefone e disse-me que se precisasse de alguma coisa, para ligar-lhe. Nem que eu estivesse em Portugal. Disse-me que podia passar porque sentiu que existiam infracções que não se podiam ver. Agradeci ao meu irmão. Voltei a pensar que a maior infracção dos nossos dias é a indiferença. E das desculpas que muitas vezes usamos para as não ver. Muito pior do que ver malas espalhadas na parte de trás de um Jipe.

À medida que fomos entrando na Guiné-Bissau, as paisagens foram ganhando um maior encanto. Até o olfacto começou a ser presenteado com um fantástico cheiro a flores. Mas o verdadeiro encanto veio dos sorrisos mais fáceis.

O momento mais tenso aconteceu quando passamos em Ganduá, a trinta quilómetros de Catió quando uma povoação nos impediu a passagem. O Octávio, a Anabela e a Manuela vieram em nossa direcção para esperarem por nós, e quando a povoação percebeu, quiseram juntar-se para nos receber. Tivemos direito a um banho de multidão inesquecível.

A viagem Viana do Castelo - Gondomar - Catió foi a segunda parte de um processo com quatro partes. Não se deixem impressionar. Não foi nada especial. A única coisa impressionante são vocês, meus amigos 🚑💕💕